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Proposta de Valor Óbvia versus Indústria 4.0

No meio de tantas iniciativas de indústria 4.0 e produtos hiper megalomaníacos, resolvemos inovar de uma maneira diferente. Queríamos desafiar o status quo vigente na indústria, rever conceitos, padrões, atender os clientes com a mesma experiência em que a Loggi se baseou para revolucionar o Correios no Brasil: atacando um problema óbvio, grande e real.

Portanto, este artigo tem o intuito de ser provocativo, da mesma forma que eu me provoquei há 1 ano quando fundei a TRACTIAN e agora compartilho essas informações valiosas, para que você intraempreenda dentro da indústria que está inserido, ou até mesmo, para criar a sua IndTech (industrial tech — startups focadas na indústria) considerando os valores a seguir.

O óbvio deve ser trabalhado

Se você procurar no Google: proposta de valor óbvia, provavelmente não vai obter nenhum resultado. Pois implicitamente espera-se que uma proposta de valor — a principal razão que indica porque um cliente deveria comprar seu produto — deva ser óbvia o suficiente. Contudo, não é o que ocorre na prática. A junção óbvia é necessária para escancarar a razão com a qual seu produto existe. Óbvia não quer dizer que todo mundo já pensou nisso antes, mas quer dizer que deve gerar o efeito de: “Como eu não tenho isso ainda?”.

O que ocorre na Indústria 4.0 é que, muitas vezes, o negócio criado não é necessário e não é óbvio, mas é cool. Parece inovador ou promissor, parece que alguém vai querer colocar isso na indústria algum dia, mas esse dia nunca chega. O produto não chega a sair dos stands dos eventos de inovação. Geralmente começa com o Diretor que viu numa conferência na Alemanha e pediu para o Gerente “ficar de olho”, que por sua vez comunicou o Coordenador que comunicou para o Engenheiro Especialista “estudar” a hipótese de aplicação.

Parece familiar? O que falta nesse processo? Ninguém perguntou que problema aquilo de fato resolvia. Lembro quando o Google Glass saiu de fábrica e a quantidade de provas de conceito (POCs) de realidade aumentada que foram criadas para tentar encaixar aquilo de alguma maneira na realidade industrial — Google Glass faliu antes mesmo disso acontecer.

Ainda não satisfeito? Pense no seguinte: quantas pessoas trocam de celular porque o novo modelo agora possui 256GB de armazenamento e quantas decidiram manter o celular que usavam para assinar um serviço de 5 reais por mês (iCloud, OneDrive), para mandar suas fotos para a nuvem e não ter mais que se preocupar com isso?

A indústria funciona como um carro

Você vai comprar um novo motor V8 para colocar no seu Ford Fiesta ou vai fazer de tudo para manter o funcionamento do motor atual em dia?

Vejo iniciativas 4.0 que não saem do papel. Planejamentos e mais planejamentos sobre como trocar o motor do carro para V8 e obter 12.786% a mais de potência ao invés de melhorar continuamente 1.287% ao mês. E nesse processo, acabam esquecendo de fazer a manutenção corriqueira ou aquele recall simples do airbag que todos sabem que não está funcionando direito, até que o carro para de funcionar.

Os melhores profissionais que conheci entendiam a importância de obter um aviso para quando o pneu estivesse ficando careca, ir lá e substituir proativamente. Consequentemente, a cultura desta indústria e sua produção têm resultados melhores. Também conheci profissionais que pulavam de PowerPoint em PowerPoint tentando justificar um investimento de um pneu que fazia almoço e deixava o café da manhã pronto (rs). O que acontecia na cultura dessa empresa é o que eu chamo de inércia da inovação exacerbada.

A inércia de querer dar 10 passos sem dar o primeiro

É aqui que a indústria falha: em não promover ganhos incrementais. Vidrados em uma lógica de inovação ludibriada, esquecem do principal: entre planejar os próximos 10 passos ou executar os próximos 2 passos que você já sabe quais são, escolha o segundo.

indústria 4.0

O primeiro passo é sempre o Quebra-Nozes. Já tentou quebrar uma noz com a ponta de uma faca? O quebra-nozes é visualmente simples, “não parece tão robusto”, mas funciona e atende a necessidade como nenhum outro. Vão te falar que parece não ser a opção mais completa, compram uma faca afiada de última geração, grande, robusta, top de linha, investem uma nota e colocam para quebrar a sua primeira noz: falha total. Tente novamente.

Os bancos digitais são um dos bons exemplos disso. Nubank até hoje não possui opções de investimento, apenas o seu quebra-nozes: CDI. Não é atoa que foi considerado o banco mais inovador pelos jovens. Quebram as nozes como ninguém. Já outros que possuem um canivete suíço de opções, acabam por não desempenhar nenhuma de suas funcionalidades corretamente.

Se você fornece um produto que a pessoa precisa empenhar mais tempo em aprender como seu produto opera do que simplesmente operar à moda antiga, você pegou o caminho errado.

O produto para ser bom, além de resolver a dor, tem que fazer você economizar, pelo menos, 50% do tempo que você utilizava anteriormente.

Já falamos sobre isso aqui, não importa se é pato ou pata, eu quero ver botar o ovo. Não importa se a máquina aprende com algoritmo A, B ou C, o que importa é se o insight gerado é acionável e valioso.

O clássico do ventilador na linha de produção

Mario Sergio Cortella, em uma de suas ilustres palestras, nos conta sobre a clássica história fictícia do ventilador e a caixinha de pasta de dentes. Uma grande empresa multinacional (que fabricava, entre outras coisas, pasta de dentes) tinha, há 15 anos, um grande problema para ser resolvido: na esteira final de embalamento algumas caixinhas vinham vazias, sem o tubo de creme dental. Isso era um problema pois poderia causar dificuldades comerciais para a empresa.

Investiram oito milhões de reais e chegaram a uma solução “estupenda”: um programa de computador, acoplado à esteira de aço com uma balança ultra sensível. Quando passava uma caixinha vazia o sistema acusava a diferença de peso, parava a máquina, travava tudo, um braço hidráulico vinha e tirava a caixa vazia.

indústria 4.0

Depois de três meses de funcionamento perfeito, foram olhar os relatórios e descobriram que havia dois meses que o sistema estava desligado. Chamaram supervisor, gerente e chefe e ninguém sabia de nada. Chamaram os operários e alguém falou: “a gente desligou isso, porque dava um trabalho danado. Travava o tempo todo”. Então, como é que está funcionando sem defeitos? “A gente resolveu do nosso jeito: fizemos uma vaquinha, juntamos oitenta reais e compramos um ventilador grande e colocamos na esteira. Quando passa uma caixinha vazia o vento carrega!”

Apesar da história ser metafórica, nos leva a uma reflexão interessante: o óbvio é sempre melhor. E inovar não significa ter tecnologia da NASA, necessariamente. Significa:

  1. Fazer melhor que todos os outros para o público-alvo.
  2. Ser intuitivo e prazeroso de usar.
  3. Resolver um problema grande e real.

Quando me perguntam se o nosso “bandaid” para monitorar quebras de equipamentos é Indústria 4.0, eu digo que não é 1.0, não é 4.0 e não é 10.0, a TRACTIAN resolve um problema óbvio e latente, o efeito que obtemos a cada vez que um novo gestor de manutenção entra em contato é assustadoramente legítimo: “Preciso disso para ONTEM. Vai resolver minha vida aqui.”

É recompensador ver um questionamento que fizemos lá atrás, atraindo pessoas bem intencionadas, ponta firmes e que compartilham da mesma visão. Bora resolver um problema de verdade! Dê o primeiro passo.