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Como ler espectro de vibração para falha em rolamento

Erik Cordeiro

Atualizado em 27 mai. de 2026

7 min.

O rolamento é o componente que mais quebra em ativos rotativos. Mas, curiosamente, também tem as falhas mais fáceis de detectar cedo na curva PF.

Quando é lido corretamente, o espectro de vibração mostra o defeito ainda em estágio inicial, com energia baixa e em frequência específica, dando tempo de planejar a substituição. No entanto, quando lido errado, mostra um ativo aparentemente saudável até o eixo travar e a planta parar.

A diferença entre os dois cenários não é o sensor e nem a frequência de coleta. É a capacidade do analista (ou do algoritmo usado) de saber onde olhar, o que esperar de cada estágio de deterioração e como combinar o espectro com outras métricas pra fechar o diagnóstico com confiança.

Esse artigo é um guia direto pra leitura espectral em rolamentos, que inclui as quatro frequências características, os quatro estágios de falha visíveis no espectro e como o cruzamento de métricas aumenta a precisão do diagnóstico em casos limítrofes.

Leia também:

As quatro frequências características do rolamento

Todo rolamento tem quatro frequências de defeito que dependem da geometria interna (diâmetro do elemento rolante, diâmetro primitivo, número de elementos, ângulo de contato) e do RPM. 

Cada uma corresponde a um modo de falha específico:

As quatro frequências características do rolamento

BPFO (Ball Pass Frequency Outer race) e falha em pista externa

BPFO é a frequência com que cada elemento rolante passa por um ponto da pista externa. Quando há defeito ali (lascamento, indentação, pitting), cada passagem gera um impacto, e esses impactos aparecem como pico no espectro na BPFO e seus harmônicos (2x, 3x, 4x).

Como a pista externa é estacionária em relação à carga, a amplitude do impacto é estável e o espectro mostra picos limpos, sem bandas laterais relevantes. Esse é geralmente o defeito mais fácil de identificar visualmente.

BPFI (Ball Pass Frequency Inner race) e falha em pista interna

O BPFI opera na mesma lógica, mas com a pista interna girando junto com o eixo. O defeito entra e sai da zona de carga a cada rotação, gerando modulação em amplitude na frequência de rotação (1x).

No espectro, a falha aparece como pico na BPFI rodeado por bandas laterais espaçadas em 1x do RPM. A presença dessas bandas laterais é o que distingue o diagnóstico de pista interna de pista externa, mesmo que os picos sejam próximos numericamente.

BSF (Ball Spin Frequency) e falha nos elementos rolantes

É a frequência de rotação dos elementos rolantes em torno do próprio eixo. Quando há defeito num elemento, o impacto ocorre duas vezes por rotação (uma na pista interna, uma na externa), então o que aparece no espectro é geralmente 2x BSF.

Esses defeitos vêm modulados pela FTF, com bandas laterais espaçadas em FTF em torno da BSF. É o tipo mais difícil de identificar por inspeção visual, porque as amplitudes são baixas e as bandas laterais são muito próximas.

FTF (Fundamental Train Frequency) e falha na gaiola

É a frequência de rotação da gaiola, sempre menor que 1x do RPM (tipicamente entre 0,38x e 0,45x). Defeitos na gaiola são raros e geralmente indicam problemas avançados em outros componentes do rolamento.

A FTF é importante como referência de modulação. Bandas laterais espaçadas em FTF apontam pra defeito em elementos rolantes; em 1x, apontam pra pista interna. Distinguir essas modulações separa um diagnóstico genérico de um diagnóstico cirúrgico.

Os estágios da falha em rolamento e o que cada um mostra no espectro

A deterioração de um rolamento segue um padrão razoavelmente previsível, com quatro estágios clássicos. Saber em qual deles o rolamento está define a janela disponível para intervenção planejada.

Veja como se apresentam os quatro estágios:

Os estágios da falha em rolamento e o que cada um mostra no espectro

Estágio 1: alta frequência acima de 20 kHz, invisível em espectro convencional

Microtrincas subsuperficiais começam a se formar por fadiga, sem descontinuidade ainda na pista. BPFO, BPFI, BSF e FTF não aparecem no espectro convencional, que costuma ser configurado até 1 ou 2 kHz.

O que existe nessa fase são emissões ultrassônicas acima de 20 kHz, detectáveis por sensores de ultrassom ou pela técnica de envelope com filtragem em alta frequência. Espectros tradicionais simplesmente não capturam essa fase.

Janela de intervenção: ampla, desde que o ativo seja monitorado com técnicas além do espectro convencional.

Estágio 2: frequências características aparecem com baixa amplitude

Pequenas descontinuidades começam a se formar nas pistas ou nos elementos rolantes. As frequências naturais dos componentes do rolamento (500 Hz a 2 kHz) começam a ser excitadas pelos impactos e aparecem como picos com amplitudes modestas.

BPFO/BPFI/BSF ainda não dominam, mas começam a aparecer com energia baixa, frequentemente com as primeiras bandas laterais. É o estágio em que o envelope mostra muito mais informação que o espectro normal, porque captura a modulação dos impactos antes deles ficarem evidentes no espectro de banda larga.

Janela de intervenção: confortável, com tempo pra programar troca em parada planejada.

Estágio 3: frequências características claras, harmônicos e bandas laterais

Já é um defeito maduro. BPFO, BPFI ou BSF aparecem com picos altos e múltiplos harmônicos. Bandas laterais espaçadas em 1x (pista interna) ou em FTF (elemento rolante) confirmam o tipo. O kurtosis começa a subir, indicando que os impactos estão ficando mais agudos.

Esse é o estágio em que a maioria das ferramentas tradicionais começa a disparar alarme. O problema é que a janela aqui já está se fechando, o defeito está claro porque já progrediu.

Janela de intervenção: limitada, mas ainda viável. Tipicamente semanas, dependendo da carga e da velocidade.

Estágio 4: ruído de banda larga, frequências características desaparecem

Defeito generalizado. A geometria se degrada o suficiente pra que os impactos percam periodicidade. As frequências características começam a sumir do espectro, e o que cresce é ruído de banda larga em toda a faixa. O pico em 1x aumenta, indicando perda de rigidez e desbalanceamento secundário.

Paradoxalmente, é fácil concluir que o ativo está saudável nesse estágio se o analista só procura BPFO ou BPFI, porque elas saíram do espectro. O diagnóstico correto vem do crescimento da RMS, do achatamento do envelope e do aumento da banda larga.

Janela de intervenção: praticamente nenhuma. É uma questão de horas ou dias até a falha funcional.

Benefícios de cruzar espectro, envelope, RMS e kurtosis no diagnóstico completo

Olhar só pro espectro de velocidade ou aceleração resolve uma fração do problema. O diagnóstico completo de rolamento exige cruzar quatro indicadores complementares, cada um sensível a uma fase diferente da deterioração.

O espectro de aceleração é a base para identificar frequências características e harmônicas em estágios 3 e 4. É onde o diagnóstico nominal acontece: BPFO confirmado, pista externa identificada, severidade estimada por amplitude relativa.

O envelope (demodulação) detecta defeito em estágio 2, antes do espectro convencional mostrar qualquer coisa relevante. Como isola a modulação de impactos repetitivos, captura padrão periódico mesmo com amplitude absoluta baixa. Sem envelope, o estágio 2 passa despercebido em mais da metade dos casos.

A RMS dá a foto da severidade. Não diz onde está o defeito, mas mostra se a energia total de vibração está crescendo no tempo. É o indicador mais simples e mais subutilizado.

O kurtosis pega o estágio 1 quando o ultrassom não está disponível. Como mede o caráter impulsivo do sinal (picos agudos relativos à média), responde a impactos transientes antes deles se tornarem periódicos no espectro. Kurtosis subindo com RMS estável é um dos sinais mais precoces de falha de rolamento que existem.

A combinação dessas técnicas gera diagnósticos robustos. O kurtosis indica que algo começou, o envelope localiza o defeito em estágio inicial, o espectro confirma o modo de falha e o RMS quantifica a severidade ao longo do tempo. Quem usa só um desses indicadores está olhando o problema por uma única janela.

Como a Tractian automatiza a leitura espectral em escala

Ler espectro de um rolamento é um trabalho para analistas experientes. Cruzar informações de todos esses indicadores é tarefa difícil. Agora, ler o espectro de cinco mil rolamentos, todo dia, com regime variável e em ativos espalhados por múltiplas plantas, não é um trabalho humano. É aí que entra o trabalho do sistema.

A solução de monitoramento de condição da Tractian foi construída pra fazer o trabalho que até o técnico mais experiente não quer ou não consegue fazer. 

O modelo de autodiagnóstico com IA calcula BPFO, BPFI, BSF e FTF a partir da geometria do rolamento e do RPM medido em tempo real pelo magnetômetro integrado ao sensor. Espectro de aceleração, envelope, RMS e kurtosis são processados continuamente em paralelo, e a análise é cruzada automaticamente pra identificar em qual estágio de falha o rolamento está.

Diferente de sistemas que disparam alerta por threshold ultrapassado, a plataforma usa IA pra interpretar o conjunto de indicadores e gerar diagnóstico contextualizado, com tipo de defeito (pista externa, pista interna, elementos rolantes, gaiola), estágio e janela recomendada de intervenção. 

Cada alerta vem com a evidência espectral anexada, pra que o analista confirme a leitura com poucos cliques em vez de varrer o espectro manualmente.

Como o sistema aprende o comportamento de cada ativo ao longo do tempo, os thresholds vão se ajustando ao regime real de operação, reduzindo drasticamente os falsos positivos que destroem a credibilidade dos sistemas convencionais.

Muito provavelmente, a próxima falha do seu rolamento já começou a dar sinais. A questão é em qual estágio ela está agora e quanto tempo ainda resta antes do eixo travar no meio do turno. Com a Tractian, você tem a resposta. Mais importante ainda, você tem a solução.

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FAQ

Como calcular as frequências características de um rolamento específico?

Pelo catálogo do fabricante, que traz os fatores BPFO, BPFI, BSF e FTF como múltiplos do RPM. Multiplica-se cada fator pela rotação real do eixo (em Hz). Se o catálogo não estiver disponível, dá pra calcular a partir da geometria (número de elementos, diâmetro do elemento, diâmetro primitivo, ângulo de contato).

O que diferencia falha em pista externa de falha em pista interna no espectro?

A presença de bandas laterais. Pista externa gera picos limpos na BPFO sem modulação significativa. Pista interna gera picos na BPFI com bandas laterais espaçadas em 1x do RPM.

Quando o pico no espectro é falha real e quando é ruído?

A falha real aparece em frequência calculável (BPFO, BPFI, BSF, FTF ou harmônicos) e se mantém estável entre coletas. Ruído é disperso, sem harmônicos coerentes, e varia muito de uma coleta pra outra. Se o pico aparece no espectro de aceleração e no envelope na mesma frequência, é defeito real.

Em que estágio o rolamento ainda permite intervenção planejada?

Estágios 2 e 3 são as janelas confortáveis. Estágio 1 é cedo demais pra trocar e estágio 4 é tarde demais. O ideal é detectar no 2 e programar a troca pra próxima parada.

Como a Tractian lê o espectro de vibração e ajuda a evitar falhas?

A solução de monitoramento de condição da Tractian processa espectro, envelope, RMS e kurtosis em tempo real, calcula as frequências características de cada rolamento com base na geometria e no RPM real e identifica automaticamente o estágio de falha. Cada alerta vem com diagnóstico contextual e evidência espectral, permitindo que a equipe valide a leitura e programe a intervenção dentro da janela ideal.

Erik Cordeiro
Erik Cordeiro

Engenheiro de Aplicações

Engenheiro de Aplicações na Tractian, Erik Cordeiro é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de São Carlos e Pós-Graduado em Gestão de Manutenção, com especialização em manutenção industrial e gestão de energia. Com alta expertise em operações industriais e amplo domínio de manutenção preditiva, Erik é referência em soluções para aumentar a confiabilidade em plantas fabris.

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