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Curva ABC na Gestão de Estoque: Como Aplicar Passo a Passo

Erik Cordeiro

Atualizado em 27 mai. de 2026

5 min.

A falta de peça crítica em estoque é o tipo de problema que muda o cálculo de uma manutenção inteira. Quando o ativo para e a peça de reposição não está no almoxarifado, o que era pra ser uma intervenção planejada vira corretiva emergencial, com pedido urgente ao fornecedor, hora extra do time e perda de produção fora do orçamento previsto.

A Curva ABC é o método que estrutura essa decisão antes que ela vire problema. Aplicada ao estoque de manutenção, ela ajuda o gestor a definir quais peças exigem reposição automática, quais entram em monitoramento e quais podem ser compradas sob demanda, sem que o critério dependa de memória de quem está coordenando o almoxarifado naquele turno.

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Como elaborar a Curva ABC do estoque de manutenção

A construção da curva segue três passos, e cada um tem um cuidado específico quando o objeto é estoque de manutenção, não estoque comercial.

1. Liste os itens do estoque com os dados de uso

O primeiro passo é catalogar o que existe no almoxarifado. Para cada item, registre descrição técnica, código de identificação, valor unitário, quantidade consumida em um período definido (em geral, 12 meses) e valor total movimentado nesse período.

A parte da quantidade consumida é a que costuma falhar em planta com controle informal de almoxarifado. Sem histórico confiável de quantas peças saíram em cada mês, a curva é construída sobre estimativa, e a classificação acaba refletindo a percepção do gestor, não o consumo real. Em planta sem CMMS estruturado, vale extrair os dados a partir das ordens de serviço fechadas, mesmo que o trabalho de levantamento leve algumas semanas. Curva ABC construída sobre dado impreciso resolve menos problema do que cria.

2. Calcule a representatividade financeira de cada item

Com a lista pronta, multiplique o valor unitário pela quantidade consumida no período. Esse valor é o custo total que cada item representou para o estoque de manutenção. Em seguida, divida o custo total de cada item pelo custo total movimentado pelo almoxarifado, e você terá a porcentagem que aquele item representa do estoque.

O ponto onde manutenção diverge do varejo aparece aqui. Em estoque comercial, classificar por valor financeiro funciona porque o item caro é, em geral, o item que mais movimenta receita. Em manutenção, o item caro nem sempre é o mais crítico para a operação. Um rolamento de R$ 800 que para a linha de produção tem peso operacional maior que um motor de R$ 30 mil que tem redundância em standby.

Por isso, a Curva ABC em manutenção costuma ser cruzada com criticidade de ativo. O resultado é uma classificação em duas dimensões: valor financeiro e impacto operacional da falta. Item caro e crítico fica em outro nível de atenção que item caro e não crítico.

3. Classifique em A, B ou C

Com a representatividade calculada, organize os itens em ordem decrescente e aplique a divisão clássica:

  • Itens A: os que somam, juntos, cerca de 80% do valor total movimentado. Em geral, representam 20% dos itens do estoque. Exigem controle rigoroso de nível mínimo, ponto de pedido bem definido e reposição automática quando o estoque chega ao ponto crítico.
  • Itens B: os que somam cerca de 15% do valor total. Representam 30% dos itens, em média. Exigem monitoramento periódico, e o ponto de pedido pode ter mais folga, mas não devem ficar parados no almoxarifado por longo período sem uso.
  • Itens C: os 5% restantes do valor, distribuídos em 50% dos itens. Em geral, são itens de baixo custo unitário e alto volume. A regra é manter quantidade suficiente para não faltar, sem demandar controle individual minucioso.

A leitura prática é direta. Item A precisa estar lá quando o técnico pedir. Item B pode ter prazo curto de reposição. Item C, em geral, fica com estoque de segurança maior porque o custo de manter é baixo.

Curva ABC e criticidade do ativo: por que cruzar as duas dimensões

O erro mais comum em programa de Curva ABC para manutenção é parar na classificação financeira e tratar o resultado como definitivo. Ele não é. O passo que diferencia gestão madura de gestão básica é cruzar a classificação ABC com a criticidade do ativo onde aquela peça é aplicada.

Um rolamento classificado como item C pela curva ABC pode ser peça crítica em um ativo classe A da planta. Se o ativo é gargalo de linha e a peça é específica para ele, faltar essa peça no almoxarifado equivale a parar a planta inteira por falta de item de baixo valor. Esse é o cenário onde a Curva ABC pura falha, e onde a sobreposição com a matriz de criticidade entra para corrigir a leitura.

Na prática, a operação cria uma matriz cruzada. Item A em ativo crítico fica em estoque permanente, com ponto de pedido conservador. Item C em ativo crítico recebe tratamento de item A, mesmo sendo barato, porque o que importa não é o valor da peça, mas o custo da falta. Item A em ativo não crítico pode ter prazo de reposição mais longo, porque a falha tem impacto operacional baixo.

Essa matriz cruzada é o que sustenta a decisão de quantos e quais itens manter em estoque sem inflar o capital imobilizado. Almoxarifado de manutenção em planta industrial brasileira costuma ter de 15% a 25% de itens sem giro nos últimos 12 meses, e boa parte desse capital parado vem de classificação ABC pura sem cruzamento com criticidade real.

O que muda quando o estoque conversa com o monitoramento de condição

A Curva ABC organiza o que já se sabe sobre consumo histórico. O que ela não enxerga é a falha que está por vir, e que vai puxar peça do estoque em momento que ninguém previu.

É aí que a integração entre monitoramento de condição e gestão de estoque muda a equação. Quando o sensor identifica progressão de falha em um rolamento específico, com janela estimada para a intervenção, a peça correspondente já entra na fila de reposição antes da OS ser aberta. O estoque deixa de ser dimensionado por consumo histórico médio e passa a ser dimensionado por condição real dos ativos monitorados.

Em plantas com mil pontos de monitoramento, isso significa que a Curva ABC continua valendo como estrutura de classificação, mas ganha uma camada dinâmica. O item C que ia ser comprado em três meses pode subir na fila porque o sensor sinalizou degradação no ativo que usa essa peça. O item A que estava na fila de reposição automática pode esperar mais um ciclo porque os ativos que consomem aquele item estão todos com saúde estável.

Essa lógica reduz dois custos ao mesmo tempo: o de capital parado em peça que não vai ser usada no curto prazo, e o de parada não planejada por falta de peça que ninguém previu que ia ser necessária.

Quer entender como a sua Curva ABC se comportaria se o consumo de peça fosse projetado pela condição real dos ativos, e não pelo histórico médio do almoxarifado?

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Erik Cordeiro
Erik Cordeiro

Engenheiro de Aplicações

Engenheiro de Aplicações na Tractian, Erik Cordeiro é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de São Carlos e Pós-Graduado em Gestão de Manutenção, com especialização em manutenção industrial e gestão de energia. Com alta expertise em operações industriais e amplo domínio de manutenção preditiva, Erik é referência em soluções para aumentar a confiabilidade em plantas fabris.

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