Todo mundo na indústria conhece pelo menos um equipamento que parece ter nascido com defeito. Você executa a manutenção, corrige a falha, coloca para rodar e, pouco tempo depois, tudo se repete. É como se o ativo insistisse em falhar, não importa o que seja feito.
E a pergunta que inevitavelmente surge é: em que momento a repetição de falhas deixa de ser um problema pontual e passa a indicar uma falha mais profunda?
É exatamente aí que entra o Tempo Médio Entre Falhas. Diferente de uma métrica teórica ou genérica, o MTBF é um indicador direto da confiabilidade real do seu equipamento. Ele se baseia em dados históricos e serve como um termômetro para saber se os seus esforços de manutenção estão surtindo efeito ou se você está apenas apagando incêndios.
Neste artigo, vamos mostrar o que o MTBF realmente mede, como calcular e como usá-lo para aumentar a confiabilidade dos seus ativos e reduzir paradas desnecessárias.
O que é MTBF (Tempo Médio Entre Falhas)
O MTBF (Tempo Médio Entre Falhas) é um indicador que mede quanto tempo, em média, um ativo reparável opera até apresentar uma nova falha. Na prática, ele mostra por quanto tempo o equipamento costuma funcionar antes de parar novamente.
Para entender bem o MTBF, é importante ter clareza sobre alguns pontos:
- Aplica-se apenas a sistemas reparáveis, ou seja, ativos que passam por manutenção corretiva para voltar a funcionar. Ativos que são inutilizados quando falham não entram nessa métrica.
- É medido em horas de operação. Apesar de alguns usarem ciclos ou dias, o padrão mais confiável é contar as horas em que o ativo está efetivamente operando.
- Baseia-se em dados históricos, então reflete o que já aconteceu, não sendo necessariamente uma previsão futura precisa.
Por exemplo, se um motor de esteira funciona por 1.000 horas e falha 4 vezes nesse intervalo, o MTBF dele será de 250 horas. Esse número não é um cronômetro para prever exatamente quando a próxima falha vai ocorrer. Ele funciona como um referencial de desempenho, um indicador baseado em dados reais que mostra quanto tempo de operação você pode esperar entre as falhas de um ativo.
Mais do que uma estatística, o MTBF é uma métrica prática e que pode se transformar em ação ao mostrar claramente o que está funcionando e o que precisa ser ajustado no plano de manutenção.
Com ele, você começa a responder perguntas essenciais da operação, como:
- A manutenção preventiva está fazendo efeito?
- Quando devemos programar a próxima preventiva para evitar uma falha inesperada?
- Qual é o nível real de confiabilidade desse equipamento?
Como calcular o MTBF da forma certa
A fórmula do MTBF é simples:
MTBF = Tempo Total de Operação ÷ Número de Falhas
Como qualquer métrica de manutenção, o valor que ela entrega depende totalmente da qualidade dos dados que você insere. Se as informações sobre falhas estiverem incompletas ou forem inconsistentes, o MTBF não vai servir de base para nenhuma decisão relevante.
Para garantir que o cálculo seja confiável, é preciso seguir três passos fundamentais. Vamos começar pelo primeiro:
1. Registre dados confiáveis sobre as falhas
Você não consegue melhorar o que não foi mensurado ainda. E não dá para mensurar se você não define claramente o que está tentando medir.
No caso do MTBF, falha é quando o ativo deixa de cumprir sua função esperada e precisa de intervenção da manutenção. Ou seja, nem todo desvio ou anomalia conta como falha. Por exemplo, um pico de vibração que não interrompe o funcionamento não entra no cálculo. Já uma parada causada por travamento da máquina, que afeta a produção? Essa com certeza deve ser registrada.
Seguindo essa regra, agora é necessário registrar, em cada evento de falha:
- Data e hora da falha
- Duração da parada
- Componente ou sistema que falhou
- Ação corretiva realizada
Vamos a outra situação hipotética: se sua empacotadora travar e a produção for interrompida, isso é um evento de falha. Se ela apenas emitir um ruído estranho, mas seguir operando normalmente, isso ainda não entra na conta. Sim, pode ser um sintoma de falha futura, mas o MTBF só considera falhas que realmente impactam a operação.
A chave para capturar esses dados com consistência é: mantenha o processo simples o suficiente para que as pessoas realmente o façam, mas detalhado o bastante para gerar valor no futuro.
2. Some o tempo total de operação
Agora é hora de calcular quanto tempo, de fato, o ativo operou entre as falhas. Mas atenção: não estamos falando de dias corridos no calendário. O que interessa aqui são as horas reais de funcionamento.
Ou seja, considere somente os períodos em que o equipamento esteve em operação ativa, desempenhando sua função.
Exclua desse cálculo paradas programadas para manutenção preventiva ou corretiva, shutdowns planejados (como paradas de fábrica) e dias ou turnos sem produção, ou seja, feriados, revezamentos e períodos ociosos.
Sendo assim, o tempo total de operação significa todas as horas em que o ativo estava ligado e executando sua função. Já o número de falhas representa quantas vezes esse funcionamento foi interrompido por falhas reais, excluindo paradas por eventos planejados ou externos à máquina.
Esse total de horas será a sua base de comparação com o número de falhas registradas, considerando sempre o ritmo da produção da sua planta.
A maior parte das equipes extrai esse dado de logs de runtime, sistemas SCADA, CMMS ou relatórios dos operadores. Independentemente de qual método você usa, deve ser consistente. Use sempre a mesma fonte de dados para todos os seus cálculos de MTBF.
3. Divida pelo número de falhas
Depois de somar o tempo real de operação e contabilizar as falhas, é hora de aplicar a fórmula:
MTBF = Tempo Total de Operação ÷ Número de Falhas
Exemplo: um tanque misturador funciona por 3.000 horas e apresenta 3 falhas nesse período.
MTBF = 3.000 horas ÷ 3 falhas = 1.000 horas
Essa é a média de tempo que esse ativo opera antes que algo dê errado.
O que é um "bom" MTBF?
Não existe um número universal que defina o “MTBF ideal". O valor aceitável depende do tipo de ativo, do seu contexto operacional e das condições de uso. Mas existe uma regra que nunca muda:
- MTBF alto = mais confiabilidade
- MTBF baixo = alerta de instabilidade
Acompanhar esse indicador ao longo do tempo permite ver com clareza se suas estratégias de manutenção estão funcionando ou se é hora de reavaliar o plano.
Por que acompanhar o MTBF faz diferença na manutenção
Manter dezenas ou centenas de ativos rodando não é tarefa simples. E cada máquina falha de um jeito diferente, em ritmos distintos. Com base nos dados históricos de MBTF, você consegue planejar melhor, priorizar com mais precisão e identificar padrões antes que eles virem problemas graves na produção.
Veja como o MTBF orienta decisões estratégicas na prática:
Intervalos de manutenção preventiva mais inteligentes
Se a manutenção preventiva é feita cedo demais, você desperdiça recursos. Se atrasa, a falha pega a operação de surpresa.
O MTBF ajuda a encontrar o ponto ideal entre esses extremos. Ele alinha o plano de manutenção com os padrões reais de falha, evitando trabalho desnecessário e protegendo a disponibilidade da máquina.
Benchmarking de performance entre ativos
Quando dois ativos iguais apresentam MTBFs muito diferentes, tem algo errado. Essa diferença pode revelar falhas de operação, problemas de instalação ou práticas de manutenção inconsistentes.
O MTBF expõe esses pontos fora da curva e permite ações mais direcionadas, exatamente onde há risco.
Planejamento de estoque e peças de reposição
Ativos com MTBF mais baixo tendem a consumir peças mais rápido. Com esse dado, você consegue planejar o estoque de forma muito mais assertiva: não falta peça crítica na hora da falha, nem sobra componente parado no almoxarifado.

MTBF, MTTF e MTTR: entenda as diferenças
Essas três siglas costumam aparecer juntas e, por isso, muitas vezes acabam confundidas, mas a verdade é que cada uma mede algo diferente. E entender essas diferenças é essencial para montar uma estratégia de manutenção realmente confiável.
MTBF: Tempo Médio Entre Falhas (para ativos reparáveis)
O MTBF mede a frequência de falhas em equipamentos que podem ser reparados. Ele calcula o tempo médio de operação entre duas paradas, considerando que, após a falha, o ativo volta a funcionar normalmente.
Alguns exemplos típicos de ativos em que o MTBF se aplica:
- Motores elétricos
- Bombas hidráulicas
- Redutores
- Sistemas de controle e automação
MTTF: Tempo Médio até a Falha (Componentes não reparáveis)
O MTTF (Tempo Médio até a Falha) é usado para componentes que não são reparados, mas simplesmente substituídos quando falham. Ele mostra quanto tempo, em média, essas peças duram até apresentarem a falha que ocasiona a troca.
Esse indicador é especialmente útil no planejamento de reposição de peças, no controle de itens de consumo e na modelagem de falhas de ativos não reparáveis.
Entre os exemplos mais comuns, estão:
- Rolamentos
- Juntas e vedações
- Fusíveis
- Componentes eletrônicos descartáveis
MTTR: Tempo Médio para o Reparo
O MTTR (Tempo Médio para o Reparo) mostra quanto tempo sua equipe leva, em média, para colocar um ativo de volta em operação após uma falha. Ele considera todas as etapas: diagnóstico, reparo e reativação.
Diferente de métricas como MTBF ou MTTF, o MTTR não depende do tipo de ativo, mas sim do impacto da falha na operação e da agilidade da resposta da equipe de manutenção.
Essa métrica é especialmente útil para:
- Equipamentos críticos que afetam diretamente a produção;
- Ativos com alta frequência de falhas corretivas;
- Ambientes com metas rigorosas de disponibilidade;
- Situações em que a eficiência da manutenção influencia o cumprimento de SLA.
Com o MTTR, você identifica gargalos no processo corretivo e atua para reduzir o tempo de resposta diante de falhas que realmente comprometem a operação.
Então, recapitulando:
- MTBF: mostra com que frequência o ativo falha.
- MTTF: quanto tempo ele dura até precisar ser trocado.
- MTTR: quanto tempo leva para consertar depois da falha.
Cada métrica responde a uma parte do problema, e juntas, elas oferecem uma visão mais completa sobre a confiabilidade dos ativos e a eficiência da manutenção.
Desafios ao usar o MTBF na prática
Na realidade da manutenção industrial, a precisão e a utilidade do MBTF dependem totalmente da forma como os dados são registrados e interpretados.
Aqui estão alguns dos principais pontos de atenção para quem trabalha com MTBF:
1. Médias podem enganar
O MTBF é uma média, e média não é garantia. Imagine que você tem dez motores iguais: nove funcionam perfeitamente e um vive falhando. O MTBF geral pode até parecer bom, mas esconde que um dos ativos está comprometendo todo o desempenho.
A solução? Nunca avalie o MTBF apenas de forma agregada. Analise o indicador por ativo ou grupo de ativos semelhantes. É isso que permite identificar os problemas persistentes, que ficam invisíveis quando os dados são misturados.
2. A qualidade dos dados define o valor da métrica
Se eventos de falha não são registrados, se os registros são inconsistentes ou se a documentação é vaga, o MTBF perde totalmente a utilidade. Ou pior, ele pode indicar uma falsa sensação de melhoria, quando na verdade as falhas estão apenas deixando de ser reportadas.
Um MTBF confiável começa com um processo disciplinado e consistente de registro das falhas reais. Esse processo fica mais fácil quando sua equipe conta com um sistema CMMS estruturado para documentar tudo em tempo real.
3. O contexto muda tudo
Nem todo equipamento opera nas mesmas condições. Um modelo de bomba pode trabalhar com água limpa, enquanto outro exatamente igual lida com uma mistura abrasiva.
Mesmo sendo idênticos, os MTBFs desses dois ativos vão ser completamente diferentes. E não tem nada de errado nisso, desde que você leve o contexto em consideração.
Ao comparar MTBFs entre ativos ou plantas diferentes, considere sempre o ambiente de operação, a carga aplicada, o ciclo de trabalho e outros fatores que impactam diretamente o desempenho e a confiabilidade.
4. Falta de padrão na definição de falha
Se a equipe não compartilha uma definição clara do que é uma falha, o MTBF simplesmente não será consistente ao longo do tempo.
É essencial padronizar essas definições desde o início. Defina, por exemplo, se um simples reset ou parada rápida é considerado falha. Com os critérios definidos, documente e siga esse padrão de forma contínua. É isso que permite enxergar tendências, desvios e melhorias reais.
O MTBF é uma métrica poderosa, mas só quando construída sobre dados limpos, consistentes e com contexto. Se os registros forem vagos ou incoerentes, o indicador perde a precisão e pode te levar na direção errada.
Como melhorar o MTBF na prática
Se o MTBF está abaixo do esperado, esse é um sinal claro de que sua estratégia de confiabilidade precisa evoluir. A boa notícia é que existem formas testadas de mudar esse cenário.
Aqui estão três caminhos práticos para melhorar esse indicador:
1. Registre as falhas com consistência
Cada falha precisa ser registrada com detalhes não só quando aconteceu, mas também por que aconteceu.
Um bom ponto de partida é adotar um modelo simples de registro:
- O que falhou
- Quando a falha ocorreu
- Por que falhou (causa raiz, se possível)
- O que foi feito para resolver
Com o tempo, esses dados revelam padrões de falha por componente, turno ou ambiente. E são esses padrões que mostram onde atacar primeiro para reduzir as paradas.
2. Alinhe a manutenção preventiva com o MTBF
Depois de entender o intervalo médio entre falhas dos seus ativos, use essa informação para ajustar o plano de manutenção preventiva.
Exemplo prático: se uma bomba crítica costuma falhar a cada 300 horas, programe inspeções a cada 250 horas. Assim, você age antes da falha acontecer.
A ideia aqui não é aumentar a frequência da manutenção preventiva, mas sim programar cada intervenção no momento certo, com base em dados reais, evitando falhas e otimizando recursos.
3. Padronize a análise de causa raiz (RCA)
Corrigir a falha e seguir em frente não resolve o problema. Sempre que um ativo crítico falhar, é preciso investigar a fundo o que causou a falha.
Um processo estruturado de análise de causa raiz ajuda a responder perguntas como:
- Por que o ativo falhou?
- Isso já aconteceu antes?
- Que condições contribuíram para o problema?
- O que precisa mudar para evitar que ocorra de novo?
Ferramentas como o 5 Porquês ou a FMEA podem ser aplicadas para estruturar essa investigação. Esse tipo de abordagem transforma a manutenção reativa em resolução sistemática de problemas, reduzindo falhas repetidas e, consequentemente, melhorando o MTBF ao longo do tempo.
Como o CMMS otimiza o MTBF
O MTBF é como um termômetro em tempo real da eficiência da sua operação. Quando monitorado e aprimorado de forma contínua, ele permite sair do modo “improviso” e avançar para um cenário de desempenho planejado e previsível.
Mas a realidade é que, para muitas equipes, isso ainda parece distante. Nem todos têm as ferramentas ou processos certos para registrar falhas com precisão ou calcular o MTBF de forma ágil. E, sem dados claros e acessíveis, é quase impossível usar o indicador para tomar decisões de verdade.
O CMMS da Tractian resolve isso rapidamente. Com ele, o MTBF é rastreado automaticamente a partir das ordens de serviço registradas no sistema. Todo o histórico de falhas fica organizado, e os insights aparecem no momento certo, sem planilhas extras, sem cálculos manuais.
Você registra tarefas diretamente do chão de fábrica, utiliza SOPs gerados por IA para reduzir variações e segue checklists estruturados criados pela plataforma para evitar erros recorrentes. Como consequência, seu MTBF melhora. Não por sorte, mas porque as decisões passam a ser tomadas com base em dados concretos.
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