Durante muitos anos, falar em manutenção preditiva na indústria foi praticamente sinônimo de análise de vibração. E não por acaso: a vibração se consolidou como uma das técnicas mais eficazes para antecipar falhas mecânicas, especialmente em máquinas rotativas críticas.
Hoje, ela tira a manutenção do modo reativo, traz mais previsibilidade e é base de inúmeros programas bem-sucedidos.
Mas, à medida que as operações ficaram mais complexas, esse modelo começou a mostrar seus limites. Por isso, os programas de manutenção preditiva mais maduros começam a evoluir. Em vez de depender de um único sinal, eles passam a combinar diferentes técnicas, cada uma capturando um aspecto específico do comportamento do ativo.
Este guia explora as principais técnicas de manutenção preditiva além da vibração, o que cada uma mede de fato, onde elas se complementam e como escolher a abordagem certa para cada tipo de ativo e modo de falha.
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Análise de vibração na manutenção preditiva
A análise de vibração é a técnica mais difundida da manutenção preditiva porque consegue traduzir o comportamento mecânico de máquinas rotativas em informações objetivas e comparáveis ao longo do tempo.
Quando bem aplicada, sustenta diagnósticos confiáveis e decisões técnicas com boa margem de segurança.
Ela funciona especialmente bem para falhas que já afetam a dinâmica mecânica do ativo, como defeitos em rolamentos, desalinhamentos, desbalanceamentos, folgas estruturais e problemas de engrenamento.
Em máquinas operando em regime estável, essas falhas tendem a evoluir de forma previsível, o que facilita a análise de tendência e a definição da janela de intervenção.
As limitações aparecem quando o contexto operacional muda. Em máquinas de velocidade variável, o sinal vibratório se dilui ao longo da operação, as frequências se deslocam e a leitura exige mais tratamento e interpretação. Isso aumenta a incerteza, especialmente nos estágios iniciais do problema.
Outro ponto crítico são as falhas de baixa energia vibratória. Problemas ligados a lubrificação deficiente, atrito incipiente ou pequenas perdas de eficiência ainda não geram impacto mecânico suficiente para se destacar no espectro. Nesses casos, a vibração tende a confirmar a falha quando ela já evoluiu, e não necessariamente quando começa.
Por isso, a vibração continua sendo um sinal forte e essencial, mas que ganha muito mais valor quando combinada com outras técnicas. É a partir dessas limitações que surgem abordagens complementares, capazes de antecipar comportamentos que a vibração, sozinha, não consegue capturar com a mesma sensibilidade.
Por que é necessário pensar além da vibração?
A análise de vibração resolve uma grande parte dos problemas mecânicos clássicos, especialmente em ativos rotativos operando em regime estável. Mas ela não resolve tudo. À medida que os ativos passam a operar com maior variabilidade de carga, velocidade e processo, algumas falhas são mais difíceis de identificar apenas com vibração.
Em máquinas de velocidade variável, por exemplo, o sinal se dilui ao longo da operação. Em falhas ligadas a lubrificação, atrito incipiente ou pequenas perdas de eficiência, muitas vezes a energia vibratória ainda é baixa demais para gerar um alerta confiável.
É aí que surgem dois problemas comuns no dia a dia da manutenção: falhas que já estão se formando, mas ainda não cruzaram nenhum limite vibratório claro e, por outro lado, alertas que até aparecem, mas geram dúvida suficiente para atrasar a decisão.
Isso se traduz em inspeções extras, rechecagens manuais e aquela sensação recorrente de que tem algo errado, mas ainda não é possível afirmar o que.
Por isso, o novo padrão em programas mais maduros de manutenção preditiva é combinar a vibração com outras medições. Em vez de depender de um único tipo de sinal, a estratégia passa a combinar diferentes sinais, cada uma sensível a um tipo específico de comportamento do ativo.
Quando múltiplos sinais convergem, a dúvida da equipe diminui. Quando um sinal aparece antes do outro, o time ganha tempo. E quando os dados se complementam, a decisão fica muito mais fácil, já que passa a ser baseada em evidência técnica.
Ultrassom na manutenção preditiva
O ultrassom mede um tipo de comportamento diferente da vibração. Em vez de observar o impacto mecânico global do ativo, ele capta fenômenos de alta frequência associados a atrito, turbulência e descargas.
Isso faz com que essa técnica seja especialmente sensível a falhas que ainda não geraram resposta vibratória significativa.
Na prática, o ultrassom é muito eficaz para identificar problemas de lubrificação, início de desgaste em rolamentos e situações em que há contato anormal entre superfícies. Esses fenômenos costumam surgir cedo no ciclo de falha, quando a energia ainda é baixa demais para aparecer com clareza no espectro vibratório.
Um dos usos mais consolidados do ultrassom na indústria é a detecção de vazamentos em sistemas de ar comprimido. Qualquer pequeno vazamento gera turbulência e ruído ultrassônico característico, mesmo quando não há queda perceptível de pressão.
Por isso, o ultrassom se tornou uma ferramenta direta para reduzir desperdício de energia e perdas operacionais invisíveis a olho nu.
A antecipação de falhas por lubrificação deficiente é um grande forte do ultrassom. Isso porque, antes que um rolamento passe a vibrar de forma anormal, o atrito interno já se altera. O ultrassom consegue capturar essa mudança mais cedo, permitindo correções simples como relubrificação no momento certo, antes que o dano avance.
A técnica também tem aplicação em inspeções elétricas, onde descargas parciais, corona e arco geram emissões ultrassônicas detectáveis. Mesmo sem aumento de temperatura ou falha funcional aparente, esses sinais indicam degradação do isolamento e risco crescente.
O ultrassom não substitui a vibração. Ele atua em um estágio diferente do problema, revelando comportamentos que antecedem o dano mecânico mais evidente. Quando usado de forma integrada, ele ajuda a reduzir incertezas, antecipar falhas incipientes e melhorar a qualidade da decisão técnica ao longo do ciclo de vida do ativo.
Outras técnicas que aparecem em programas maduros
À medida que a manutenção preditiva evolui, outras técnicas começam a entrar de forma pontual, sempre com um papel bem definido.
Diferente da vibração e do ultrassom, que tendem a compor o monitoramento recorrente, essas abordagens costumam ser usadas de forma mais direcionada.
Em geral, elas entram para investigar modos de falha específicos, validar hipóteses ou aprofundar análises quando há dúvida técnica. Termografia, análise de óleo e medições elétricas são bons exemplos. Cada uma observa um aspecto diferente do ativo, como aquecimento anormal, contaminação de lubrificante ou degradação elétrica.
O ponto comum entre programas mais maduros não é o número de técnicas adotadas, mas a clareza de propósito. Cada método tem um custo, uma complexidade e um tipo de falha que consegue antecipar melhor. Usá-los de forma indiscriminada tende a gerar mais dados do que decisões.
Por isso, essas técnicas aparecem como complementos estratégicos, acionados quando o contexto pede mais profundidade, e não como camadas fixas aplicadas a todos os ativos da planta.
Ultrassom para elétrica e inspeções específicas
O ultrassom elétrico é usado para identificar fenômenos que não costumam aparecer nem na vibração nem na temperatura, especialmente em estágios iniciais. Descargas parciais, efeito corona e pequenos arcos elétricos geram emissões ultrassônicas antes que o problema se traduza em aquecimento ou falha funcional.
Por isso, a técnica é bastante aplicada em inspeções de painéis, subestações, conexões e isolamentos. Ela ajuda a priorizar intervenções em pontos onde o risco ainda não é visível, mas já está se formando. Em programas mais maduros, o ultrassom elétrico funciona como uma ferramenta de triagem: não substitui outras medições, mas direciona a atenção para onde o risco é real.
Técnicas de laboratório vs técnicas de rotina
Outra distinção importante em programas avançados de preditiva é entre técnicas de laboratório e técnicas de uso recorrente. Análise de óleo, por exemplo, pode entregar informações profundas sobre desgaste, contaminação e condição interna do ativo, mas exige coleta, envio, tempo de resposta e custo por amostra.
Já técnicas de rotina são aquelas que se integram ao dia a dia da operação, com medições frequentes e leitura mais imediata. Elas não substituem análises laboratoriais, mas ajudam a decidir quando faz sentido acioná-las.
Em operações mais maduras, o valor está justamente nessa combinação: usar sinais de rotina para indicar tendência e evolução, e recorrer a análises mais profundas apenas quando o dado de campo aponta necessidade real. Isso reduz custo, acelera decisões e mantém o foco onde o risco é maior.
Como escolher a técnica certa
Não existe uma técnica de manutenção preditiva que funcione igualmente bem para todos os ativos e cenários. A escolha depende menos da tecnologia em si e mais do risco que se quer reduzir e do tipo de falha que se espera encontrar.
Em programas mais eficientes, a decisão parte de critérios claros, como impacto operacional, modos de falha mais prováveis e o nível de detalhe necessário para sustentar a ação. É isso que define quais sinais fazem sentido monitorar em cada caso.
A seguir, alguns critérios práticos que ajudam a orientar essa escolha:

Criticidade do ativo e consequência
O primeiro critério para escolher uma técnica de manutenção preditiva é a criticidade do ativo. Não em termos de valor do equipamento, mas da consequência real da falha: impacto na produção, na segurança, no meio ambiente ou na qualidade do produto.
Ativos de alta criticidade exigem sinais mais sensíveis e antecipação maior, justamente porque o custo do erro ou do atraso é alto. Nesses casos, faz sentido combinar técnicas para reduzir incerteza e ganhar tempo de reação. Já em ativos de menor impacto, abordagens mais simples costumam ser suficientes.
Esse filtro evita dois extremos comuns: investir demais onde o risco é baixo e monitorar de menos ativos cuja falha não permite margem de erro. A técnica certa começa sempre pela avaliação das consequências da falha, não pela tecnologia disponível.
Modos de falha prováveis
Depois de entender a criticidade do ativo, o próximo passo é olhar para os modos de falha mais prováveis naquele contexto específico. Nem toda técnica é sensível aos mesmos tipos de degradação, e assumir que um único sinal vai capturar tudo costuma gerar lacunas no monitoramento.
Ativos sujeitos a problemas de lubrificação, atrito ou desgaste superficial, por exemplo, tendem a se beneficiar de sinais que respondem bem a esses fenômenos nos estágios iniciais.
Já falhas ligadas a desequilíbrios, folgas estruturais ou problemas de montagem costumam aparecer de forma mais clara quando a degradação já afeta a dinâmica mecânica do conjunto.
O histórico do ativo, as condições de operação e o tipo de esforço aplicado ajudam a prever quais falhas são mais prováveis de ocorrer. A partir disso, a escolha da técnica deixa de ser genérica e passa a ser orientada pelo comportamento real esperado da máquina ao longo do tempo.
Resolução e escala
Outro critério decisivo é entender qual nível de detalhe a decisão exige e em que escala o monitoramento precisa operar. Nem toda análise precisa de alta profundidade técnica, assim como nem toda planta consegue sustentar medições complexas em grande volume.
Em alguns casos, o objetivo é detectar cedo e priorizar, mesmo que o diagnóstico ainda não esteja fechado. Em outros, a operação precisa de mais resolução para sustentar intervenções específicas. Definir isso evita tanto a coleta de dados excessivos quanto decisões baseadas em sinais pouco confiáveis.
A escala também importa. Técnicas que funcionam bem de forma pontual nem sempre se mantêm eficientes quando aplicadas a dezenas ou centenas de ativos. Programas mais maduros consideram desde o início o esforço de coleta, a frequência necessária e a capacidade do time de analisar e agir sobre esses dados.
Como a Tractian combina técnicas de manutenção preditiva e reduz falso positivo na sua operação
Um dos maiores desafios da manutenção preditiva em escala não é detectar anomalias, mas confiar nos alertas.
À medida que o número de ativos monitorados cresce, cresce também o volume de alertas, e com ele, o risco de falso positivo, retrabalho e perda de credibilidade do sistema.
É por isso que combinar técnicas faz diferença. Quando sinais diferentes observam o mesmo ativo sob perspectivas complementares, a análise deixa de depender de um único indicador isolado e passa a se apoiar em correlação de evidências. Isso reduz a ambiguidade e fortalece a tomada de decisão.
A vibração continua sendo essencial para acompanhar a evolução mecânica do equipamento ao longo do tempo. Medições sensíveis a atrito, turbulência e comportamentos incipientes entram como um reforço nos estágios mais iniciais da falha.
Quando esses sinais caminham juntos, o time consegue distinguir melhor o que é variação operacional normal do que é degradação real.
Outro ganho importante da combinação está no timing da decisão. Um único sinal pode até indicar que algo mudou, mas não necessariamente se aquele é o momento certo de agir. Quando diferentes medições convergem ou mostram progressão consistente, a equipe ganha confiança para priorizar, planejar e intervir sem depender de rechecagens constantes.
A abordagem da Tractian parte exatamente desse princípio: usar o monitoramento de condição de forma integrada, combinando diferentes sinais para reduzir ruído, antecipar falhas incipientes e transformar dados em decisões mais claras no dia a dia da manutenção.
O foco não está em gerar mais alertas, mas em gerar alertas melhores, com mais contexto, mais confiabilidade e menos dúvida.
Sua estratégia de manutenção preditiva está capturando os sinais certos?
FAQ – Manutenção preditiva além da vibração
O que é manutenção preditiva e qual a diferença para manutenção preventiva? A manutenção preditiva se baseia na condição real do ativo para decidir quando intervir, com a intenção de “prever” as falhas. Já a preventiva segue intervalos fixos de tempo ou uso, independentemente de o equipamento estar se degradando ou não.
Quais são as principais técnicas de manutenção preditiva usadas na indústria? As mais comuns são análise de vibração, ultrassom, termografia, análise de óleo e medições elétricas. Cada uma observa um tipo diferente de comportamento do ativo.
Como escolher a técnica de manutenção preditiva certa para cada tipo de ativo? A escolha deve considerar a criticidade do ativo, os modos de falha mais prováveis e o nível de antecipação necessário para sustentar a decisão no tempo certo.
O que a análise de vibração detecta bem e em quais casos ela tem limitação? A vibração é muito eficaz para falhas mecânicas já em progressão, como defeitos em rolamentos, desalinhamentos e folgas. Ela tem limitação em máquinas de velocidade variável e em falhas muito iniciais, com baixa energia vibratória.
Termografia na manutenção preditiva: para que serve e quais falhas ela ajuda a antecipar? A termografia identifica aquecimentos anormais, sendo útil para falhas elétricas, sobrecargas, problemas de contato e alguns tipos de atrito. Ela indica consequência térmica, não necessariamente a causa raiz.
Ultrassom na manutenção preditiva: para que serve e quais falhas ele detecta mais cedo? O ultrassom é sensível a atrito, turbulência e descargas, o que o torna eficaz para detectar falhas de lubrificação, desgaste incipiente, vazamentos de ar comprimido e problemas elétricos antes que apareçam em outras medições.
Por que detectar vazamentos de ar comprimido com ultrassom reduz custo de energia? Porque vazamentos geram ruído ultrassônico contínuo, mesmo quando não há queda perceptível de pressão. Detectá-los cedo evita desperdício energético e sobrecarga desnecessária do sistema.
Qual a diferença entre ultrassom e vibração na manutenção preditiva e quando faz sentido combinar os dois? A vibração responde melhor a falhas mecânicas já estabelecidas, enquanto o ultrassom é mais sensível a estágios iniciais. Combinar os dois reduz dúvida e antecipa a tomada de decisão.
Quando o monitoramento contínuo é melhor do que a inspeção pontual (handheld)? Quando o ativo é crítico, opera de forma contínua ou apresenta falhas que evoluem rápido. O monitoramento contínuo reduz zonas cegas entre inspeções e melhora a previsibilidade da manutenção.

