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Monitoramento contínuo em prensas automotivas: benefícios e como fazer

Breno Smanio

Atualizado em 15 mai. de 2026

7 min.

A prensa de estampagem é um dos ativos mais valiosos e mais difíceis de monitorar em uma planta automotiva. Afinal, é ela que define o ritmo da produção. 

Quando a prensa para, toda a linha de funilaria, pintura e montagem final para junto, e o relógio do takt time começa a contar o prejuízo em peças, horas extras e multas contratuais com a montadora cliente.

A boa notícia é que a maioria das falhas catastróficas em prensas dá sinais com semanas de antecedência. A má notícia é que esses sinais quase sempre ficam encobertos pela própria assinatura vibratória do golpe, que é tão intensa que satura qualquer sistema de monitoramento mal configurado.

Esse guia prático explica por que o monitoramento convencional falha nesse tipo de ativo, onde instalar os sensores, como separar a frequência de golpe da assinatura de falha mecânica no espectro e como construir um baseline confiável em uma máquina que opera em regime intermitente.

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Por que prensa automotiva resiste ao monitoramento padrão

A prensa mecânica de estamparia opera em ciclo de impacto repetitivo. Em cada golpe, o cursor desce, encontra a chapa, deforma o material em milissegundos e volta. Esse evento gera uma onda de choque que se propaga por toda a estrutura, de forma que essa energia cobre praticamente todo o espectro de frequência.

Em termos de instrumentação, isso significa que um sensor calibrado para um ativo rotativo convencional como um motor, uma bomba ou um ventilador, quando monitora uma prensa, simplesmente não dá conta.

São três problemas que aparecem juntos.

O primeiro é que o sensor satura. A faixa dinâmica de aceleração em um motor elétrico saudável é da ordem de poucos g. Em uma prensa, no instante do golpe, os picos passam de 50 g a 100 g, dependendo da tonelagem e da rigidez do ponto de medição. Um acelerômetro padrão de 50 g entra em saturação e o que sai do outro lado é um sinal recortado, sem informação útil.

Outro obstáculo para a medição é que a resolução em alta frequência se perde. As falhas que mais importam em rolamentos (BPFI, BPFO, BSF) costumam estar em faixas acima de 1 kHz, muitas vezes acima de 5 kHz quando consideramos modulações de impacto inicial. Se a frequência de amostragem do sensor não acompanha (sensores de mercado costumam parar em 6,4 ou 12,8 kHz), o defeito nascente fica abaixo do piso de detecção.

O terceiro problema é: a frequência de golpe domina o espectro. Em uma prensa rodando a 60 golpes por minuto, a frequência fundamental do golpe é 1 Hz, e suas harmônicas se espalham por todo o espectro. Sem técnicas de processamento adequadas, qualquer assinatura de defeito vira ruído de fundo na sombra desse trem de harmônicas.

A consequência disso é que a manutenção da prensa segue sendo essencialmente baseada em horímetro e nas inspeções sensoriais do operador. Não por escolha, mas por limitação da instrumentação convencional.

Onde instalar sensor em uma prensa automotiva

A escolha dos pontos de medição é tão importante quanto o sensor em si. 

Em uma prensa, há três regiões que concentram a maioria dos modos de falha mecânica e que merecem cobertura sistemática:

Mancal de biela

A biela é o componente que transforma o movimento rotativo do eixo excêntrico em movimento linear do cursor. Os mancais nas duas extremidades da biela (na cabeça do eixo excêntrico e no pino do cursor) recebem a carga máxima do golpe a cada ciclo, com inversão de sentido. 

É o ponto onde os defeitos de lubrificação, de folga e de fadiga aparecem primeiro. 

Se um sensor é instalado diretamente no alojamento do mancal superior (cabeça da biela junto ao eixo excêntrico), ele captura tanto a assinatura do impacto quanto as modulações de alta frequência geradas por defeitos incipientes no mancal e nos rolamentos do eixo.

Volante e embreagem

O volante armazena a energia rotacional que vai ser liberada no momento do golpe, e a embreagem é o componente que faz a conexão entre o volante e o eixo excêntrico (que só gira durante o ciclo de prensagem). Os rolamentos do volante operam continuamente em alta rotação e sofrem com lubrificação inadequada, desbalanceamento residual e desalinhamento de eixo. A embreagem, por sua vez, sofre desgaste das superfícies de fricção, falhas no sistema pneumático de acionamento e folgas progressivas no cubo.

Colocar um sensor no mancal do volante e outro próximo à carcaça da embreagem cobre essa região com boa resolução. Como o volante gira em rotação contínua e relativamente alta, aqui a análise espectral convencional funciona melhor, desde que a frequência de amostragem permita ver as bandas de defeito.

Guias e colunas

As guias (ou gibs) garantem que o cursor desça paralelo ao leito da prensa. Problemas como folga excessiva, desgaste assimétrico ou falta de lubrificação aparecem como vibração anômala em direção transversal ao eixo de movimento do cursor. As colunas estruturais sofrem com fadiga ao longo dos anos, especialmente em prensas que trabalham acima da tonelagem nominal por longos períodos.

Posicionar sensores nas guias inferior e superior, em direção transversal, captura defeitos de paralelismo e folga que afetam diretamente a qualidade da peça estampada. E um sensor na coluna captura assinaturas de fadiga estrutural e mudanças na rigidez global do conjunto.

Como separar frequência de golpe da falha mecânica no espectro

Esse é o ponto técnico central do monitoramento de prensas. A frequência de golpe é cíclica, repetitiva e tem energia altíssima. As frequências de falha mecânica também são cíclicas, mas vêm da rotação dos componentes internos e têm energia muito menor.

A primeira coisa a entender é que a falha mecânica aparece nas frequências relacionadas à rotação do componente, não à cadência de golpe. 

Um defeito na pista externa de um rolamento do eixo excêntrico aparece em BPFO, calculada a partir da rotação do eixo. Um defeito no rolamento do motor principal aparece em frequência relacionada à rotação do motor, que é geralmente bem mais alta que a rotação do eixo da prensa, por causa da redução. Já um defeito no rolamento do volante aparece em frequência relacionada à rotação do volante. Nenhuma dessas frequências é múltipla direta da cadência de golpe.

Isso muda completamente a forma de procurar. Em vez de olhar para o espectro inteiro e tentar adivinhar o que é cada coisa, o analista (ou o sistema de análise, em monitoramentos inteligentes) precisa de uma lista de frequências de referência calculadas a partir do RPM real de cada componente rotativo, separadamente.

Com as frequências de referência no lugar certo, o passo seguinte é extrair o sinal do defeito de baixo da massa de impacto. É aí que entra a técnica de envelope, também chamada de demodulation ou high-frequency resonance technique

Defeitos de rolamento geram pulsos curtos de alta frequência que modulam uma faixa estreita do espectro. Aplicando o filtro de envelope na faixa correta (tipicamente entre 5 e 20 kHz), o sinal do defeito é separado da energia de baixa frequência do impacto do golpe. 

Sem envelope, o defeito incipiente fica enterrado no piso de ruído do espectro. Com envelope corretamente configurado, o mesmo defeito aparece com clareza, semanas antes da falha funcional.

Mas existe também a questão da variação de cadência. Prensas modernas ajustam o número de golpes por minuto conforme a peça e a matriz. Se uma prensa que normalmente roda a 40 SPM passa a operar a 25 SPM em uma campanha específica, todas as frequências características de defeito se deslocam proporcionalmente. 

Sem rastreamento contínuo do RPM, a análise espectral tenta encontrar defeito em frequência que já mudou de lugar. Em ativo com velocidade variável de golpe, portanto, RPM real é obrigatório para posicionar os picos no lugar certo do espectro a cada análise.

Como construir baseline em ativo com regime intermitente

A prensa não opera em regime estável o tempo todo, mas em regimes discretos, definidos pela matriz montada, pela espessura da chapa, pela tonelagem nominal de trabalho e pela cadência de golpe.

Com tudo isso em mente, entenda como não errar no baseline para esse tipo de ativo:

O baseline não pode ser tirado em um único momento

Se o analista captura o comportamento da prensa em um dia rodando uma matriz leve, com chapa fina e cadência alta, esse baseline não vai representar nada quando, na semana seguinte, a mesma prensa estiver estampando uma peça estrutural pesada com chapa de 4 mm a 30 SPM.

O caminho correto é capturar o ativo em condição estável, na mesma matriz, com a quantidade de golpes por minuto consistente, e construir um perfil de comportamento esperado para aquele regime específico. Esse vira o baseline de referência para aquela condição.

Variação de tonelagem e de espessura de chapa muda a assinatura

A energia entregue no golpe é função da tonelagem aplicada e da força necessária para deformar a chapa. Uma chapa mais espessa exige mais força, gera mais reação na estrutura e produz uma assinatura vibratória diferente. Então o ideal é configurar um baseline por regime e não um único para todo o ativo. Assim, o sistema sabe distinguir uma variação normal entre regimes de uma deterioração real dentro de um regime.

Na prática, isso vira uma matriz de baselines. Por exemplo, a matriz A com chapa de 1,2 mm a 50 SPM tem um perfil esperado; matriz B com chapa de 2,5 mm a 35 SPM tem outro. Cada vez que a prensa entra em um regime conhecido, o sistema compara o comportamento atual com o baseline daquele regime. 

Cada vez que entra em um regime novo, aprende o perfil e passa a usá-lo como referência. É a única forma de ter sensibilidade real em um ativo que muda de configuração com frequência.

Como a Tractian estrutura monitoramento contínuo em prensas automotivas

O sensor escolhido para monitorar uma prensa precisa estar à altura do ativo. E qualquer plataforma que for ser usada para acompanhar os resultados precisa entender o regime de operação. 

A solução de monitoramento de condição da Tractian foi desenvolvida para operar exatamente em ambientes como esse. 

O sensor combina vibração com taxa de amostragem de até 64 kHz e ultrassom contínuo no mesmo dispositivo, o que aprofunda o diagnóstico e torna qualquer análise muito mais precisa. A alta frequência de amostragem garante que as bandas de defeito de rolamento, mesmo as mais agudas, estejam sempre dentro da janela de captura. O ultrassom, por sua vez, antecipa falhas de lubrificação e atrito que a vibração isoladamente captaria semanas depois.

Em prensas, onde mancais de biela e rolamentos de volante sofrem com lubrificação inadequada antes de qualquer outra coisa, esse adiantamento alavanca a qualidade da manutenção.

O magnetômetro embarcado mede o RPM real de operação de forma contínua, ancorando o cálculo das frequências de defeito ao regime do momento, de forma que os baselines são segmentados por condição operacional. 

E o modelo de autodiagnóstico por IA aprende o comportamento da máquina em cada configuração de matriz e cadência. Quando o ativo entra em um regime conhecido, a comparação é feita com a referência correta. Quando entra em um regime novo, o sistema aprende e passa a usá-lo.

Na unidade da Bosch em Curitiba, referência no setor automotivo, a integração do sistema de monitoramento online da Tractian resultou em redução de 29% na recorrência de falhas. Em um ambiente com mais de dois mil equipamentos e 35 mil ordens anuais, esse ganho é sinônimo de disponibilidade efetiva na linha.

A prensa automotiva é um dos ativos mais complexos de monitorar, e é exatamente por isso que vale a pena fazer direito. No AI Center da Tractian, estudamos cada modo de falha e quebramos máquinas de propósito para que as suas nunca quebrem por surpresa.

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Breno Smanio
Breno Smanio

Sales Engineer com especialidade em Usinas

Sales Engineer

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